Acordou, bocejou e esticou as costelas. Nada funciona nesta vida, disse ela. Nada funciona. Não abriu as janelas. Não arrumou a cama. Tomou banho na banheira ao escuro, só depois acendeu a luz para se enxugar. Olhou-se no espelho por longos nove minutos. Ajeitou a franja com os dedos, e pôs a velha maquiagem de sempre. Pó extremamente branco e lápis extremamente preto, acentuando ainda mais aquelas olheiras horríveis de quem ficara a noite inteira a chorar, chorar, chorar, porque nada nunca funciona. Nunca dava certo. E queria que todos vissem que não dava certo, e que era culpa deles. Ela era um fruto do sistema podre. Era gorda, feia, magra, esquisita, calada, alta, baixa, cabisbaixa, infeliz, crente, bipolar, agressiva, chata, bonita demais, feia. Ela era tão tu, não era? Foi para o colégio, não falou com ninguém. Todos uns estúpidos Sorrisos falsos. Felicidade forçada. Idiotas. E por que diabos nenhum estupido veio falar comigo ainda? Ninguém me liga, pensava ela. É porque eu sou gorda, feia, magra, esquisita, calada, alta, baixa, uma grande porcaria. É só por isso. Só por isso, só esse preconceito ridículo, só porque eu sou diferente. Sociedade hipócrita. Só porque eu vejo filmes épicos, jogo videogames, gosto de bonés, falo palavrões e uso camisas duas vezes maiores do que eu. Só porque eu pinto o meu cabelo de rosa choque. É por isso que eu gosto mais de bichos do que de pessoas, pensava ela. Viu essa citação num livro da Clarice Lispector que não entendeu nada. Livro estupido. Mas Clarice é bom, dizia ela. Gostava mais de bichos do que de pessoas, é… Menos das formigas. Bichos estúpidos. Ela também gostava de dizer que não amava ninguém, mas espremia a camisa da banda de rock que ela mal conhecia todas as vezes que via aquele rapaz bonito, que ela até que gostava, mas não, não podia dizer. Todos gostavam dele então ela não gostava, porque ele era estupido. E também não gostava dos cães pulguentos que passavam por ela no passeio quando ia embora para casa, sem falar com ninguém. E sabes o que ela detestava mais do que nós? Funkeiros. É, porque funkeiros não são pessoas. O gosto musical dela era o máximo. O máximo. Pregava a paz e xingava o governo por todas essas malditas desigualdades sociais, porque ela era diferente e gostava de John Lennon, Gandhi e Bob Marley. Mas funkeiros, por favor, merecem levar um tiro na cara. Pessoas idiotas. E voltava para casa. Batia a porta com força, sabe-se lá o motivo. Dormia, comia, ia para o computador, anotava as frases e as letras das músicas que gostava num caderninho cheios de caveiras, porque ela era diferente. Eu sou um lixo. A vida não presta. Nada funciona. Mas queres saber, que se dane. Porque ela tinha muita atitude. E fechava a tela do portatil, chorava, chorava, chorava, chorava porque nada funcionava. Ou porque não tinha nada melhor para fazer. Ninguém ligava a ela. Nenhuma mensagem. Nada. Só porque ela era gorda, feia, magra, esquisita, calada, alta, baixa… Ela era a grande porcaria, dentro de um quarto escuro, mofando feito um cavalo velho, esperando um dia melhor para morrer, porque aquele… Já era. Ela podia ser boa, só não gostava de admitir. Gostava de ser diferente. Acordou, bocejou e esticou as costelas. Uma grande porcaria.sábado, 13 de abril de 2013
Uma grande porcaria
Acordou, bocejou e esticou as costelas. Nada funciona nesta vida, disse ela. Nada funciona. Não abriu as janelas. Não arrumou a cama. Tomou banho na banheira ao escuro, só depois acendeu a luz para se enxugar. Olhou-se no espelho por longos nove minutos. Ajeitou a franja com os dedos, e pôs a velha maquiagem de sempre. Pó extremamente branco e lápis extremamente preto, acentuando ainda mais aquelas olheiras horríveis de quem ficara a noite inteira a chorar, chorar, chorar, porque nada nunca funciona. Nunca dava certo. E queria que todos vissem que não dava certo, e que era culpa deles. Ela era um fruto do sistema podre. Era gorda, feia, magra, esquisita, calada, alta, baixa, cabisbaixa, infeliz, crente, bipolar, agressiva, chata, bonita demais, feia. Ela era tão tu, não era? Foi para o colégio, não falou com ninguém. Todos uns estúpidos Sorrisos falsos. Felicidade forçada. Idiotas. E por que diabos nenhum estupido veio falar comigo ainda? Ninguém me liga, pensava ela. É porque eu sou gorda, feia, magra, esquisita, calada, alta, baixa, uma grande porcaria. É só por isso. Só por isso, só esse preconceito ridículo, só porque eu sou diferente. Sociedade hipócrita. Só porque eu vejo filmes épicos, jogo videogames, gosto de bonés, falo palavrões e uso camisas duas vezes maiores do que eu. Só porque eu pinto o meu cabelo de rosa choque. É por isso que eu gosto mais de bichos do que de pessoas, pensava ela. Viu essa citação num livro da Clarice Lispector que não entendeu nada. Livro estupido. Mas Clarice é bom, dizia ela. Gostava mais de bichos do que de pessoas, é… Menos das formigas. Bichos estúpidos. Ela também gostava de dizer que não amava ninguém, mas espremia a camisa da banda de rock que ela mal conhecia todas as vezes que via aquele rapaz bonito, que ela até que gostava, mas não, não podia dizer. Todos gostavam dele então ela não gostava, porque ele era estupido. E também não gostava dos cães pulguentos que passavam por ela no passeio quando ia embora para casa, sem falar com ninguém. E sabes o que ela detestava mais do que nós? Funkeiros. É, porque funkeiros não são pessoas. O gosto musical dela era o máximo. O máximo. Pregava a paz e xingava o governo por todas essas malditas desigualdades sociais, porque ela era diferente e gostava de John Lennon, Gandhi e Bob Marley. Mas funkeiros, por favor, merecem levar um tiro na cara. Pessoas idiotas. E voltava para casa. Batia a porta com força, sabe-se lá o motivo. Dormia, comia, ia para o computador, anotava as frases e as letras das músicas que gostava num caderninho cheios de caveiras, porque ela era diferente. Eu sou um lixo. A vida não presta. Nada funciona. Mas queres saber, que se dane. Porque ela tinha muita atitude. E fechava a tela do portatil, chorava, chorava, chorava, chorava porque nada funcionava. Ou porque não tinha nada melhor para fazer. Ninguém ligava a ela. Nenhuma mensagem. Nada. Só porque ela era gorda, feia, magra, esquisita, calada, alta, baixa… Ela era a grande porcaria, dentro de um quarto escuro, mofando feito um cavalo velho, esperando um dia melhor para morrer, porque aquele… Já era. Ela podia ser boa, só não gostava de admitir. Gostava de ser diferente. Acordou, bocejou e esticou as costelas. Uma grande porcaria.
Subscrever:
Comentários (Atom)